AMOR DE GATO

        
 
               De repente, você percebe uma alteração no comportamento de seu gatinho; ele fica mais agitado,  olha com interêsse para a rua...  ou se for uma fêmea, comporta-se de um modo muito estranho, parece andar arrastando-se pelo chão, ou esfregando-se nos móveis e a seus pés... Por que será? E parece acontecer sempre nessa época do ano... Bem, seu bichano está no cio.  
               
Os machos, com frequência,  procuram atrair  as fêmeas pelo odor, “demarcando seu território” com jatos de urina pela casa, ou então miando, quando não conseguem dar uma escapadela para o namoro. Eles não apresentam cio; estão sempre prontos para o acasalamento, bastando  que haja uma fêmea  por perto. Nunca deixe dois machos adultos e ativos sexualmente juntos: eles brigarão pela disputa das fêmeas e pelo domínio do espaço aonde vivem. O recomendado é a castração, antes do período reprodutivo (por volta de 6 a 8 meses de idade).  
               
As fêmeas tornam-se mais carinhosas, miando, gemendo e enroscando-se nos móveis e aos pés de seus donos, como se sentissem dor; andam com as patas dianteiras abaixadas e com o quadril erguido, desviando a cauda lateralmente e “sapateando”; quando o cios são intensos e constantes, elas podem ficar inapetentes e perder peso,  muitas vezes causando preocupação e parecendo doentes aos olhos intrigados de quem as observa. Esse processo é  normal, embora uma observação estreita seja necessária: gatas em cios constantes e intensos tendem a desenvolver uma piometra, uma infecção uterina bastante severa, provocada pela alteração hormonal no aparelho reprodutor. 
               O cio das gatas pode durar de 4 a 12 dias, variando de acordo com maior incidência de luz e calor; porisso ocorrem  com maior frequência na primavera/verão. Nesse período, elas apresentam cios frequentes e consecutivos, podendo se repetir de 5 a 40 dias até a chegada do outono/inverno, quando são  fracos e com intervalos mais longos. 
              
Outro fator que influencia a duração e intensidade do cio é a  presência ou a ausência do macho (neste último caso, mais prolongados); e também da raça de seu gatinho, pois nas raças de pelagem curta, os cios são mais frequentes e intensos do que nos gatos de pêlos longos, de comportamento mais silencioso nesse período.   
               
A
puberdade nos gatos varia bastante, podendo ocorrer o primeiro cio nas fêmeas aos 6 ou 7 meses de idade, ou aos 14 ou 15 meses. O ideal é que elas tenham sua primeira gestação, se for o caso, após 1 ano de idade, quando  já estão completamente desenvolvidas e amadurecidas. Os machos podem começar a acasalar aos 8 meses, mas é normal observarmos gatos que o fazem apenas após os 2 anos de idade, principalmente os de pelagem longa. Estes iniciam a atividade sexual mais tardiamente que os gatos de pelagem curta. A vida reprodutiva de um gato dura de 9 a 11 anos, mas podem chegar até os 13  ou mais, nos machos.
               Porém, se você não é um Criador e adquiriu seus gatos com a finalidade de companhia,
o conselho é que ele (ou ela) seja castrado, antes que atinja a idade de reprodução, ou seja, de 06 a 08 meses de idade. A qualidade de vida do gato castrado é infinitamente maior do que se ele estiver inteiro e não estiver sendo suprido em sua necessidade de acasalamento constante. Leia também o artigo sobre Castração.          

               Mas, algumas pessoas, embora não tenham o desejo de serem Criadores de fato, ainda ponderam: "eu gostaria tanto de ter filhotinhos..." sem considerar - ou mesmo conhecer - todos os riscos que o acasalamento, gestação e parto envolvem: muitos proprietários acreditam que ter uma ninhada é fácil, basta encontrar um bom parceiro, deixar que acasalem e esperar pelos bebês. Mas, não funciona dessa forma. 
               Antes de considerar a possibilidade de acasalamento, é importante conhecer os riscos de um contato com outro animal. Mesmo que esteja sadio, sua gatinha está acostumada a uma colônia de microorganismos A, enquanto outros animais convivem com colônias diferentes, B, por exemplo. Isoladamente, A e B são inócuas para ambos. Porém, a somatização delas pode desencadear doenças muito sérias, e gerar ainda outras: o fator A e o B unidos podem propiciar o aparecimento de C & D; pela queda de resistência e o stress que o cio provoca, mais a mudança de ambiente de um dos dois para o acasalamento, e ainda o encontro, invariavelmente conflituoso, pode gerar resultados trágicos. 
            Há também casos em que um gato pode ser transmissor sadio de alguma doença viral – muitas delas, incuráveis e fatais, como Peritonite Infecciosa Felina, Aids Felina (sem contágio humano), e Leucemia Felina. Não há como saber se ele é ou não um transmissor são; somente quando ele infectar outros animais, que passam a desenvolver a doença - quando já é tarde demais para evita-la, e quando não há mais o que fazer para revertê-la.  
             Temos também a questão dos parasitas, tanto epidérmicos (micoses, ácaros, pulgas, carrapatos, piolhos), quanto otodécicos (sarnas de ouvido), e também parasitas e protozoários intestinais, cuja transmissão através de acasalamentos é certa: a incidência de verminoses e protozoários é bastante freqüente, se não forem observadas as mais estreitas condições de higienização do ambiente e os cuidados já descritos em relação à alimentação e à água oferecida aos bichanos. Todos esses problemas trazem como conseqüência a debilidade do animal, através de diarréias, vômitos, infecções gastroentéricas, desidratação, anemias, feridas, coceiras e diversos outros inconvenientes para ele e à família: algumas são transmissíveis ao Homem, como sarna epidérmica, piolhos, etc.
            Porisso enhum Criador sério e responsável cede machos para acasalamentos com gatas de fora do gatil.              Supondo-se que se encontre um parceiro em boas condições de saúde, temos ainda a questão dos riscos que envolvem um acasalamento:  
     1) A gata pode não aceitar o macho, e vice-versa. É certo que eles briguem durante uma semana, podendo até mesmo provocar uma lesão de córnea (que demora meses para curar), ou uma arranhadura que venha a infectar, curável através de antibióticos locais e/ou injetáveis - cuja administração não pode ser feita em fêmeas prenhas: a maioria dos antibióticos provoca teratogênese, ou seja, danos ao feto em formação;

    2) Um dos dois deve ir à casa do outro: gatos são territorialistas, e o dono da casa intimidará o visitante. Há também o risco de seu gato, ou o visitante, vir a fugir e acabar atropelado e/ou desaparecido definitivamente.  
    3) Diferenças alimentares entre o casal vai provocar em um deles problemas gastrointestinais – não há como separar a alimentação, uma vez que eles estarão juntos para acasalamento. Deixá-los sem comida por uma semana é algo incogitável. 

    4) O visitante fica muito estressado, num ambiente estranho, com pessoas estranhas e o parceiro furioso; é muito comum que pare de comer, voltando para casa bem mais magro (e com a resistência mais baixa) do que quando saiu. Dificilmente o proprietário dele entenderá que você não teve culpa nesse processo; e obviamente você será responsável por tudo o que acontecer enquanto ele estiver em sua casa, e também pelas consequências dessa estadia;
    5) Fêmeas em stress e em ambiente diferente costumam ‘trancar’ o cio. Significa que saem do cio, e o tempo em que passou na casa do parceiro – normalmente uma semana - foi em vão.  
    6) Quando se promove o acasalamento na casa da fêmea, ela intimida o macho, porque é dona do território; e não acasalam também.  
    7) Não existe inseminação artificial em felinos, porque as fêmeas ovulam no ato do acasalamento.

    Digamos que o casal seja de sua propriedade, e os riscos citados acima não sejam aplicáveis ao seu caso: ambos acasalam e sua menina está prenha. Gatos persas têm a cabeça maior, e, claro, os filhotes também, o que dificulta bastante o parto.Você está preparado para ele?  
            Este pode demorar algumas horas, como alguns dias. A opção do veterinário é quase sempre realizar uma cesárea, o que significa uma cirurgia com anestesia geral: além de representar sempre grande risco para a mãe, também anestesia os filhotes, que acabam, quase sempre, perdendo o estímulo respiratório no nascimento; e morrem por asfixia. Se algum sobrevive, a mãe não vivenciou o nascimento deles, e reconhece-los, aceita-los e cuidar deles é difícil para ela – até porque, também sente dores provenientes da própria cirurgia, dificultando a amamentação das crianças. Criar gatinhos de raça artificialmente, através de mamadeiras, é praticamente impossível: eles invariavelmente morrem poucos dias depois do nascimento.  
              Se não for feita a cesárea, ela pode ou não aceita-los; se aceitar, ela cuidará deles, e tentará protege-los de qualquer risco, incluindo o contato humano; muitas vezes, escondendo-os em lugares inacessíveis, deixando-os ali sozinhos por horas; como eles não retém a temperatura do corpo até os 20 dias de vida, se ficarem frios, morrerão de pneumonia em poucos dias. Mantê-los aquecidos com luz artificial vai desidrata-los: morrem também.  
              Se ela ficar com eles, as voltinhas pela casa são inevitáveis, bem como o descanso com a barriguinha no chão; as tetinhas poderão ser contaminadas com bactérias do ambiente, que serão ingeridas pelos filhotes ao mamarem, provocando infecções e levando-os à morte, pois eles não dispõe de defesas orgânicas ainda, e não há como medicá-los, tão pequenos.  

              Caso nada disso aconteça, de qualquer forma, a incidência de morte em filhotes recém nascidos é bastante alta, seja por septicemia (invasão de bactérias através do cordão umbilical), seja por asfixia ou por pneumonia, ocasionada por resíduos de líquido amniótico nos pulmões dos filhotes, por ocasião do nascimento; ou ainda, pela própria seleção natural.
 

              Portanto, pense muito bem antes de acasalar seu gatinho. Isso é trabalho para um Criador, experiente, com conhecimento genético – é bastante comum o nascimento de fetos mal formados - e que envolve sempre bastante sofrimento, quando nem tudo acontece como se espera.
 

               Mas, se você for um Criador, e a intenção é realmente gerar filhotes, é importante que eles permaneçam  juntos  por mais alguns dias para que acasalem outras vezes,  caso a gestação seja desejada: nos felinos, é o ato sexual que  induz  a ovulação,  e a liberação do óvulo ocorre por volta de 24 horas depois do acasalamento. Por sua vez, o espermatozóide do macho demora o mesmo período para se tornar fértil. Portanto, o ideal é que acasalem por mais 3 ou 4 dias, garantindo a fecundação. A gestação da gata é de 65 dias, em média. Veja também "O Parto da Gata".

Texto: Elaine Jordão
Gatil Blaze Star